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08/07/2010 - 10h44

Vida: decisões e crises

Não há dúvida de que é um avanço a conquista do livre-arbítrio em decisões pessoais nas últimas décadas. É melhor, por exemplo, poder definir o parceiro quando se decide pelo casamento, ao invés de ter de se submeter a escolhas feitas pela família, como ocorria antes (ou como ainda ocorre em certas culturas). Da mesma forma, é mais saudável poder escolher a profissão, e não ser obrigado a desempenhar tarefas a partir de um destino selado pelo pai, como era no passado - isso no caso dos homens, uma vez que às mulheres era reservada a sina de ser prendada para cuidar da casa e da família, e pronto.

No entanto, com essa mudança estrutural não nos livramos dos dramas - apenas os transferimos de lugar. Sim, porque se antes podíamos culpar os outros se a escolha não fosse a melhor, agora a responsabilidade é pessoal, e isso pode pesar muito. De jovens absolutamente inexperientes são exigidas duas decisões de "vida e morte": achar a metade da laranja, a pessoa que será o parceiro ideal até que a morte os separe; e optar pela carreira que definirá o sustento familiar e, mais ainda, será a fonte de sucesso e realização.

Na verdade, quem sabe estejamos mais avançados no que se refere ao tema casamento; pelo menos admitimos que relacionamentos podem acabar e que é possível estabelecer novas parcerias. Além disso, em muitos casos, essa definição está sendo postergada para depois dos 30 anos. No entanto, não mudamos a premissa principal: a cultura predominante ainda determina que um relacionamento que "dá certo" é aquele que dura para sempre. Isso é fonte inesgotável de frustrações, com os parceiros se perguntando, quando o relacionamento se deteriora - e isso ocorre com a maioria -, onde foi que falharam (ou melhor, onde foi que o outro falhou). Quando partirmos do princípio de que relacionamentos, como tudo, têm começo, meio e fim (embora possam ser longos e, em certos casos, eternos), e que o grande objetivo é conviver respeitosamente enquanto a relação for boa e saudável para as duas partes, as crises e frustrações talvez sejam menos graves.

No que se refere ao campo profissional, o cenário parece pior, porque partimos de várias premissas duvidosas: primeiro - a de que um jovem de 18 anos deverá saber qual atividade vai lhe dar prazer e completude por uma vida profissional de décadas. Segundo, que haverá uma progressão positivista de experiências e conhecimentos - de preferência, um roteiro lastreado pelo planejamento de carreira - que culminará numa apoteose profissional.

O enredo nem sempre é esse, porque os sentimentos individuais dificilmente se encaixam à perfeição neste molde de previsibilidade. Alguns desde crianças se rebelam e deixam claro que não foram feitos para estes papeis. Outros vão bem até a adolescência, quando aflora o temor de se perder na no script social, que não coincide com desejos individuais. Outro momento difícil é a crise dos 20 e poucos, quando se encerra a vida de "estudante profissional" e o jovem é obrigado, queira ou não, a dizer a que veio no campo profissional.

Mas provavelmente a pior das crises é a dos 30, porque a esta altura os que sobreviveram profissionalmente já sabem o quanto conseguiram cumprir em relação ao planejado, e têm elementos para estimar quanto podem ainda avançar. Como planos pessoais podem ser megalomaníacos - até porque é esse o futuro esperado pela família e pela sociedade -, a crise dos 30 é de estrutura: é a constatação de que todo o planejamento feito, de sucesso absoluto - e precoce - pode ser questionado. E mesmo que se tenha, em alguma medida, atendido às expectativas externas, as internas são quase impossíveis de se atingir plenamente. Este pode ser o momento em que alguns "travam" ou se deprimem, outros mudam de rumo, e pode ocorrer também um reordenamento geral de expectativas e de vida. Não cumprir o roteiro original é percebido como fracasso, e não como oportunidade de crescimento.

Numa entrevista recente, o escritor norte-americano Philip Roth tocou neste tema, ao explicar que sua inspiração ao escrever seu 30º livro, "A humilhação", que trata de crise pessoal, foi um ator britânico que de um momento para outro perdeu seu talento. Conta também suas próprias crises - e não há escritor que não as tenha -, destacando que a pior delas foi justamente aos 30, quando seu talento simplesmente se evaporou durante cinco anos.

Viver não é fácil, mas ajudará bastante se começarmos a entender que cada pessoa é única, e que exigir roteiros iguais de personalidades e talentos diferentes é agravar as (inevitáveis?) crises. Essa talvez seja uma das conquistas nas quais a sociedade deveria se empenhar nos próximos tempos.

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