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27/05/2010 - 11h29

A importância do equilíbrio entre trabalho e descanso

Uma das imagens marcantes de minha infância é a do meu pai sentado em sua bancada de trabalho, tarde da noite, com uma lente de aumento acoplada ao olho esquerdo para ampliar as microscópicas peças dos relógios que ele consertava. Não raro, ele continuava a trabalhar durante a hora e meia em que todas as lojas fechavam para almoço na nossa pequena cidade - espécie de adaptação caipira da siesta espanhola. Esse ritual de trabalho só não ocorria aos domingos e dias santos de guarda, em cumprimento à lei cristã. De resto, serões eram necessários numa fase em que, religiosamente, a cada três anos nascia um novo filho.

Ao longo dos anos, meu pai conseguiu se autoimpor uma divisão mais equilibrada do tempo de trabalho e de descanso. Meu irmão mais velho, que herdou a paciência de artesão e o negócio do meu pai, era uma versão "aperfeiçoada" dele, de forma que sempre manteve rígida separação entre trabalho e lazer, tornando-se quase uma caricatura, uma dualidade sempre apontada por nós, os irmãos, em nossas brincadeiras.

A pessoa séria e circunspecta, que não se desconcentrava um minuto a partir das oito da manhã, transformava-se num ser doce e brincalhão ao soarem as badaladas das 18 horas, como se fosse uma Gata Borralheira ao contrário. Em nossas conversas de fim de semana, o grupo de irmãos fantasiava atos teatrais para a relojoaria: durante o expediente, um cenário quase sacro, vozes baixas, ar solene. Mas no segundo ato, ao soar da primeira badalada libertadora, o tampo de sua mesa de trabalho automaticamente viraria ao contrário, e copos de bebida já cheios apareceriam acoplados a ele; nuvens de confete e serpentina cairiam do teto, e mulheres seminuas sairiam dançando das vitrines. Obviamente, conversávamos sobre isso quando ele, o "ator principal", já estava em horário de rir da brincadeira...

A questão do equilíbrio entre o tempo de trabalho e o de ócio é sempre discutida e nunca resolvida. Há os modelos tradicionais de rigidez de horários e cartões de pontos, e as modernidades dos horários flexíveis e trabalho em casa, amparados pela tecnologia digital, que permite conexão permanente entre empregador e empregado.

Judith Mair, em seu livro "Chega de Oba-oba!", sustenta tratar-se de engodo a suposta maior liberdade trazida pelos modelos flexíveis para os trabalhadores. Segundo ela, constatou-se que a "liberdade" levou a um aumento no tempo médio de trabalho, em contraposição ao período anterior com limite de horas, por haver um silencioso preconceito contra aqueles que, sendo aproveitadores, ou então mais eficientes e rápidos, usam a tal flexibilidade para permanecer menos tempo na empresa. Conclusão: não há como sair mais cedo, por conta dessa "vigilância informal", e a tal flexibilidade torna-se uma armadilha, apenas uma forma de estímulo aos workaholics.

De um lado, o modelo tradicional rezava uma separação rígida entre trabalho e lazer, à la Henry Ford: "Quando trabalhamos, devemos trabalhar. Quando nos divertimos, devemos nos divertir. Não serve a ninguém tentar misturar as duas coisas". De outro lado estão as propostas recentes de misturar as instâncias, como o "ócio criativo" de Domenico de Masi: "quando trabalhamos, devemos nos divertir e, quando nos divertimos, devemos aprender".

Longe da semiescravidão dos tempos da revolução industrial, talvez agora estejamos nos escravizando voluntariamente à obsessão profissional pela via digital. Muitos não aguentam se imaginar desplugados do mundo, mesmo que por poucos minutos. Afinal, tudo pode acontecer - e virar notícia - a qualquer momento, e na competição pela informação, outros estarão antenados.

Mas, se a vida profissional também pode ser comparada a um jogo "sério", pode haver diversão em jogar o tempo todo. Enfim, agora, com os recursos disponíveis, mais do que nunca a questão está posta; mas não haverá decisão definitiva - até porque, em alguma medida, trata-se de equação individual, sob o pano de fundo da regra em voga no mercado ou em prática nas corporações.

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