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30/04/2010 - 10h35

Poeira de estrelas

Um dia, um colega de trabalho, que eu sempre admirei por considerar inteligente, culto, correto e competente, contou-me ter ficado feliz com o reconhecimento que tivera por parte dos alunos em sua estreia na experiência docente. Disse ter ficado surpreso com a tamanha importância que lhe foi dada e à sua aula. E arrematou: justo eu, que sempre me achei o cocô do cavalo do bandido... Minha admiração por ele redobrou, uma agulha rara num palheiro de egos inflados. Fez-me lembrar Fernando Pessoa: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (...) Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?" (Poema em linha reta).

No âmbito dos grupos sociais, há uma tendência geral a imaginar-se - ou, ao menos, declarar-se - melhor que a média, o que parece um paradoxo estatístico. Por exemplo, individualmente ninguém se acha corrupto, mas todos dizem que brasileiro é corrupto; individualmente ninguém se acha preguiçoso, mas o jargão sempre repetido é que brasileiro é preguiçoso. Parece que o ser individual não faz parte do todo, como se o outro sempre encarnasse o mal, o ruim. Mesmo quanto à autopercepção no gradiente de felicidade, a ampla maioria considera-se mais feliz que os outros. Na prática, talvez essa percepção seja melhor do que termos bilhões de deprimidos, caso a maioria tivesse o pé no chão de admitir que somos, sim, cocôs dos cavalos dos bandidos cósmicos. A lição bíblica que reza sermos pó, e ao pó retornarmos, não é metáfora. Podemos até chamar de "poeira de estrelas", o que glamouriza bem a conclusão. Mas, no fim, trata-se de poeira mesmo.

Não é à toa que precisamos nos defender dessa dura constatação. Ela é arrasadora. Assim, é supostamente melhor negar esta realidade e construir escalas de valores e símbolos de status, para depois nos matar por eles. São "comendas" de reconhecimento profissional e social, que nos conferem a necessária importância e permitem a cada um montar maravilhosos currículos. Para obtê-las, pode ser necessário imaginar-se acima da média.

Em testes corporativos, nos quais a autoavaliação é comparada com avaliação (em iguais quesitos) feita por pares, chefes e subordinados, ocorre o mesmo: resultados agregados mostram que a maioria se autoavalia melhor do que a média do mundo ao redor. Por essa razão, há executivos que ficam chocados ao deparar-se com a realidade da avaliação alheia. Quem se acha democrático é obrigado a engolir que o mundo o vê como autoritário. Quem se imagina flexível, às vezes surpreende-se com a imagem projetada de rigidez.

Talvez seja mais gratificante achar-se o máximo, não tendo de se questionar a todo instante, se penitenciar pelo que foi feito e pelo que poderia ter sido feito. Parece haver enorme satisfação na autoimagem superior à da média, tendo como distúrbio para atrapalhar o mundo perfeito apenas a falta de competência dos outros - os estraga prazeres. Mas nem sempre esse enredo é eterno. Muitas vezes, quem se acha apenas o máximo, pode cair do cavalo - e haja maturidade para sobreviver quando cai essa ficha existencial...
 

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