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28/10/2009 - 16h37

Recado importante aos tímidos: sua timidez pode ser uma vantagem para a carreira

Você se considera tímido e acha que isso está atrapalhando sua vida, a começar pela sua carreira profissional? Pois saiba que isso pode ser uma vantagem.

Vou contar um pouco sobre minha vida. Eu sempre fui muito tímido, daqueles que sofrem até para dizer bom dia para alguém desconhecido, entretanto virei professor, palestrante, escritor. Outra característica: sou asmático. Aliás, combinação comum, asma com timidez - e um alimenta o outro. A asma dificulta a respiração, a timidez dificulta o convívio. Nenhum dos dois impede, apenas dificulta, rouba energia, imobiliza, entristece.

Antigamente, o asmático era protegido, aquecido, deixado dentro de casa, na cama, coberto dos pés à cabeça. Depois que entendemos as causas alérgicas e emocionais da asma, a conduta com o asmático mudou, e ele passou a ser mais exposto ao ar puro. Eu vivi as duas épocas.
Enquanto ficava em casa, superprotegido, minha asma só fazia aumentar. Ela começou a diminuir, até passar por completo, ou quase, quando comecei a me expor àquilo que mais desencadeava as crises: o exercício físico. Para os asmáticos o exercício mais indicado é a natação, e eu fui, então, dar as minhas braçadas, e até que não me saí mal na empreitada - entrei para uma equipe, participei de muitas competições e ganhei medalhas. Ainda sou asmático, mas a asma está sob controle.

A necessidade de resolver um problema físico fez com que eu virasse nadador. Pois com a timidez foi a mesma coisa, a motivação, entretanto, foi de outra natureza: eu precisava ganhar a vida. E sabe qual foi minha melhor oportunidade? A de dar aulas! Mas como, com a timidez que me tirava o fôlego mais que a própria asma? Foi quando a coragem teve de ser maior que o medo - aliás, outros dois companheiros inseparáveis.

A primeira aula, em um cursinho preparatório para o exame supletivo, deu mais frio na espinha do que o frio que senti na pele quando comecei a nadar. Tremia como vara verde. Eu conhecia muito bem a matéria que tinha que ensinar. Mas a timidez... Essa funcionava como uma ave agourenta que me garantia que os alunos me fariam perguntas que eu não saberia responder, e que eles me achariam ridículo, burro e feio. Mas, como é a necessidade que ensina o sapo a pular, tive de encarar o giz e o quadro negro.

O que era para ser bico de estudante transformou-se em uma carreira para toda a vida. Até hoje amo profundamente o magistério, e atribuo parte desse amor ao fato de que foi ele que me livrou do sofrimento que a timidez me dava. Repare: eu não disse que estou livre da timidez, e sim do sofrimento, pois aprendi a lidar com as relações humanas pela insistência, determinação e esforço. Não sei quantas piscinas nadei e quantas aulas ministrei, só sei que foram muitas. E sei que a asma e a timidez ainda estão em mim, mas hoje eu estou no controle, não mais esses dois embusteiros.

Não, ninguém precisa virar professor para controlar a timidez, assim como para a asma existem outras medidas mitigadoras. Mas, acredite, sem aceitar-se como é, e sem se expor ao convívio humano, aí fica difícil. E digo mais: atribuo minha qualidade didática, reconhecida como muito boa, ao fato de que eu tinha de ser aceito, portanto tinha de ser o mais didático possível. Os grandiloquentes, comunicativos, extrovertidos, não necessariamente serão os melhores comunicadores, pois eles não questionam sua aceitação. Os tímidos, estes precisam se superar, por isso costumam estar entre os melhores para vencer suas barreiras interiores.

Portanto, caros tímidos, encarem sua característica não como uma limitação, mas como o forte motivo que os levará ao melhor dos mundos - o das relações humanas baseadas na qualidade, na essência, na verdade. Sem imitar modelos e invejar os extrovertidos.


Veja outros artigos de Eugenio Mussak na coluna Pensando minha carreira

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