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02/07/2009 - 12h41

Os outros filhos de Francisco

A expectativa sobre si mesmo é o maior peso que o homem moderno carrega. Alguns a introjetam de forma a empreender uma busca por toda a vida, como um cavaleiro andante atrás de moinhos de vento. Outros, já de início, desistem e jogam a toalha, amoldando-se desde logo à pecha de fracassados. O que será pior? Num modelo ou em outro, na assunção ou na rejeição, a referência continua sendo a expectativa.

Numa família, cada qual se acomoda a papéis dentro do espectro de possibilidades das projeções. Cada um a seu modo e com suas predisposições biológicas. Alguns corresponderão à dinâmica do atendimento às expectativas; outros se especializarão em confrontá-las. Muito cedo, o mundo externo a casa também começa a cobrar seu tributo, por meio da avaliação e do julgamento. Assim, cristalizam-se imagens: este menino é estudioso, aquela garota é preguiçosa, e assim por diante.

Apesar da maior sofisticação do mundo, permanece a dicotomia: valorizamos quem tem mais capital (entendido no sentido lato dos recursos materiais ou de poder detidos por uma pessoa); em contrapartida, os desprovidos de capital estarão desprestigiados na escala de valores sociais, e alguns alijados da competição, vingam-se sob a roupagem de boas-vidas, que aproveitam o mundo ao invés de se matarem no trabalho ou de se venderem ao mercado.

O ponto de partida difere substancialmente de um indivíduo para outro, ou seja, trata-se de uma corrida na qual alguns poucos partem em enorme vantagem. Ainda bem que Freud e, mais recentemente, os neurocientistas vieram em nosso socorro, para aliviar um pouco nosso sentimento de incompetência, ao mostrarem que há determinações genéticas, culturais e psicológicas que limitam o livre-arbítrio.

O fato é que vendemos a falsa idéia de que todos podem obter o máximo, bastando apenas descobrir os talentos individuais e trabalhar com afinco. Ora, ainda que todos tivessem talento e empenho, essas não são condições suficientes para o sucesso.

É sintomático que fiquemos tão comovidos com enredos que contam vitórias sobre adversidades, tais como a de Davi sobre Golias. Se forem histórias reais e contemporâneas, melhor ainda. O filme brasileiro "2 Filhos de Francisco" é um exemplo. O enredo é comovente por retratar a pobreza e desamparo de uma família comum, igual a tantas outras; mas o que comove mais é a persistência de Francisco e de seus dois filhos, mesmo em meio a tantas adversidades, até que o talento dos cantores foi reconhecido.

As tristezas, que os expectadores acompanham com lágrimas, são recompensadas pela também emocionante ascensão, até que a dupla fosse consagrada. Mais lágrimas, agora pelo final feliz. "Entramos" no filme, como se nós mesmos estivéssemos vivendo aquele drama.

Ocorre que, neste enredo e em outros, recebemos mensagens com uma lição improvável, ao menos para a grande maioria: descubra seu talento, seja ele qual for, batalhe obcecadamente e a vitória será inevitável. Será? É claro que ir atrás dos objetivos é melhor do que esperar que oportunidades caiam sobre nossas cabeças; mas imaginar que a história terá sempre um final feliz é vender gato por lebre.

Para um caso como o de Zezé di Camargo e Luciano, quantos enredos frustrantes haverá? Não são mais frequentes as situações de insatisfação ou de frustração das altas expectativas individuais? A maioria - os demais filhos de Francisco - estará se equilibrando em algum degrau da escada, sonhando com o sucesso ou tentando se consolar por não estar ascendendo como esperava.

Estamos prometendo a todos um final feliz e, se assim não for, bem, então foi porque a pessoa não se dedicou o suficiente, ou não descobriu seu verdadeiro talento. Quem sabe, no futuro, a cultura possa valorizar menos o conceito monolítico de sucesso e possamos tratar as expectativas de forma menos massificada, num cenário em que a própria individualidade seja mais respeitada
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