Não tem cadastro? Clique aqui!

Já tem cadastro? Entre aqui

  • BUSCAR
Busca avançada de vagas

Limpar campos

02/06/2009 - 14h43

A dupla jornada feminina

Já ouvi de várias mulheres bem-sucedidas frases do tipo: "Maldita a hora em que inventaram essa tal de revolução feminina. Eu poderia estar agora cuidando da casa e de três filhos, ou estar na casa de praia com as crianças, ao invés de estar aqui, quebrando a cabeça para propor uma boa solução para este negócio da empresa." Trata-se de uma brincadeira, é claro, pois elas sabem que, em certos momentos, é mais fácil ser CEO de uma grande empresa do que mãe de três simples pirralhos em pé de guerra. Além disso, trata-se de uma falsa questão. Mulheres nascidas sob o imperativo do trabalho não conseguem mais viver segundo os antigos costumes familiares, por mais que os idealizemos.

Há apenas algumas décadas, o trabalho feminino era visto com preconceito, como necessidade, em consequência da incapacidade do provedor (salvo exceções propostas pelas mulheres então vanguardistas). Hoje, o preconceito se inverteu: dondocas são vistas como fúteis, e mesmo aquelas que optam pela dura jornada doméstica têm de se explicar. As não dondocas que conseguem abrir mão de carreiras promissoras pelos filhos - e há mulheres muito inteligentes que agem assim -, têm dúvidas. Em função disso, criamos para nós mesmas uma encrenca de bom tamanho: somos obrigadas a cumprir a jornada normal de trabalho, sem deixar de ter aspirações por casa e família, como nossas antepassadas. Estranha revolução essa, na qual brigamos, em tese, para ter muito mais dor de cabeça e trabalho. Às vezes, quase dou razão aos homens, quando brincam que mulher tem dois neurônios...

Trata-se de fato consumado e irreversível, portanto não é o caso de analisar prós e contras do antes e do depois. Mas, ao menos num ponto fundamental, valeu a pena: hoje uma mulher independente pode ser parceira de um homem por opção, não por não ter como se sustentar sozinha - e isso faz toda a diferença numa relação. Por outro lado, os dados mostram que quanto maior for a renda feminina, maior a probabilidade de ela não se casar; com os homens a correlação é oposta: maior a renda, maior a incidência de casamento. Simultaneamente, há um aumento de famílias chefiadas por mulheres: um quarto do total, em 1997, para um terço, em 2007, segundo o IPEA. Isso, apesar de ainda persistirem diferenças médias entre homens e mulheres em cargos iguais - em prejuízo destas.

Nós, brasileiras, temos muito a fazer: estudo divulgado em 2005 pelo Forum Econômico Mundial apontou o Brasil em 51º lugar em ranking de 58 países pesquisados no assunto desigualdade entre gêneros. Segundo o IBGE, a remuneração média das brasileiras é cerca de 30% inferior a dos homens, apesar de elas acumularem mais anos de estudo que eles (8,4 anos delas, contra 6,8 anos deles, em média).

Também há dados mostrando a complexidade do dia-a-dia feminino: em levantamento feito em 2007 pelo IBGE, 90% das mulheres ocupadas declararam também cuidar de afazeres domésticos, contra metade dos homens - restando ainda a hipótese de parcela deles ter respondido assim por pura demagogia. Mas, ao que parece, a sobrecarga das mulheres não é necessariamente desvantajosa: dados da International Stress Management Association sugerem que combinar casa e trabalho produz menos stress do que se dedicar a apenas um deles.

Parece estranho, mas o trabalho pode ajudar a superar momentos delicados da vida pessoal. Ter de "matar um leão por dia" no trabalho ajuda a pôr de lado, por um tempo, nossos próprios rugidos internos. Da mesma forma, quando ocorrem frustrações na vida profissional, é sempre um consolo saber que este é apenas um pedaço da vida, que há filhos ansiando por nossa presença em casa. Além disso, a agenda cheia pode nos tornar mais seletivas quanto ao que de fato importa na vida, ao que merece nosso desgaste e energia. Ao chegar em casa depois de um dia estafante, como perder tempo passando o dedo nos móveis para testar se foram lustrados pela assessora doméstica, se há uma pauta recheada de relatos sobre as descobertas do dia, ou decisões importantíssimas sobre quais contos de fadas serão lidos antes de dormir?


Judith Brito *Judith Brito é formada em Administração Pública pela FGV e tem mestrado em Ciência Política pela PUC-SP. Foi pesquisadora no CEBRAP e no IDESP, professora da FGV e há 18 anos está no Grupo Folha. Publicou dois livros: "Mãe é Mãe" e "Ah! O amor...: experiências cotidianas da vida a dois" (ambos pela Publifolha). É cronista do site www.metadeideal.com.br

ver mais dicas

Destaques

Currículo
Cuidado na sua redação
Carreira
A Escolha da Profissão
Sabe a diferença?
Recolocação, Outplacement , Headhunting e Coaching
Colunas
Daniela do LagoDaniela do Lago
Cezar TegonCezar Tegon
Eugenio MussakEugenio Mussak
Elaine SaadElaine Saad
Gutemberg de MacêdoGutemberg de Macêdo
Judith BritoJudith Brito
Licia Egger MoellwaldLicia Egger Moellwald
Luiz PagnezLuiz Pagnez
Boletim
Receba por e-mail o boletim do Emprego Certo

É necessário informar um e-mail